Introdução ao estudo dos Evangelhos Sinóticos

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DOS EVANGELHOS

 

JESUS E SEU TEMPO

 

 

1) JESUS: Nasceu pobre, viveu no meio de gente simples e oprimida, trabalhadores iguais a ele, que sofriam a exploração pela cobrança de altos impostos.

 

  • Leia os itens de “a” a “d” e complete o que se pede abaixo a respeito de Jesus.

 

Lugar:__________________________________________________________

Tempo:_________________________________________________________

Cultura:________________________________________________________

Família:________________________________________________________

Religião:________________________________________________________

Classe social:___________________________________________________

 

a) O Evangelho fala de Jesus encarnado.

            Como Jesus era visto, e como ele via a sociedade de sua época?

            Os Evangelhos falam de um Jesus que nasceu condicionado por determinadas características, assim como qualquer outra pessoa:

 

1-     Nascido em Belém da Judéia (Mt 2,1), foi criado em Nazaré da Galiléia (Lc 4,16). Falava o aramaico com sotaque judeu da Galiléia. Era visto como judeu pela samaritana (Jo 4,9) e como galileu pelos judeus da Judéia (Mt 26,69). Seria como um mineiro criado no Rio de Janeiro que agora vive em Rondônia.

 

2-     Foi criado no interior, na roça, onde a exploração pelos grandes era mais pesada. Não teve oportunidade de estudar como Paulo. Teve de trabalhar. Não era doutor da lei, nem pertencia aos grupos dos fariseus ou essênios. Para você conhecer a vida do filho de Deus durante 30 anos, é só analisar a vida de qualquer nazareno da época.

 

3-     A família de Jesus não é sacerdotal. Jesus não nasce sacerdote, nem filho de sacerdote. Nasce leigo, pobre, sem a proteção de uma classe.

 

4-     Antes de nascer Jesus já era vitima do sistema: primeiro o imperador de Roma mandou fazer um recenseamento em vista da cobrança dos impostos; depois foi perseguido pela tirania do rei Herodes. Os doze primeiros anos de Jesus foi um dos períodos mais violentos da história da Palestina.

 

b) Seu posicionamento perante a sociedade em que viveu:

Jesus enfrentou grandes desafios no seu relacionamento com a sociedade. Há um grande contraste entre os valores da época, os quais em sua maioria criavam uma mentalidade preconceituosa e opressora, e a mensagem libertadora de Jesus. Isso gerou muitos conflitos.

 

c) Um judeu entre judeus:

Enquanto tivesse idade inferior a 12 anos, o menino era considerado incapaz em matéria de religião, devendo, portanto, freqüentar uma escola especializada no assunto. Jesus também viveu numa família que conservava esses valores. Ele foi à escola da Sinagoga, onde aprendeu a ler, escrever e também conheceu as Escrituras. Todos os sábados ele ia com os pais à sinagoga para rezar. Era um judeu como os outros judeus.

 

d) Judeu da Galiléia:

A região onde Jesus foi criado e de onde saíram seus discípulos não era muito bem vista pelos judeus de sua época. A Galiléia era território de passagem de muitos estrangeiros em viagem. Isso contribuía para o que eles consideravam como impureza, ou seja, o contato com os pagãos. Além disso, a distância que eles estavam do Templo de Jerusalém, impedia que pudessem comparecer naquele local para se purificar.

 

  • Leia o ponto 2 e responda sobre os discípulos de Jesus:

 

Onde viviam: ___________________________________________________

O que faziam:___________________________________________________

Que cargo tinham no Templo:_____________________________________

Formação (que estudo tinham):____________________________________

Classe social:___________________________________________________

Como praticavam a religião judaica:________________________________

Por que Jesus chamou esses discípulos:____________________________

 

2) RELACIONAMENTOS DE JESUS

No convívio social, bem como nas suas pregações, Jesus demonstrou uma preocupação especial pelos POBRES. No trato com as MULHERES, Jesus deu a elas a oportunidade de quebrarem os tabus que as oprimiam, dando-lhes condições de respeito e igualdade perante o homem.

Há também no ministério de Jesus, uma manifestação de afeto para com as CRIANÇAS.

O POVO era constituído dos que viviam do salário do dia-a-dia, dos desempregados e sub-empregados, dos que exerciam profissões vistas como impuras ou grosseiras e dos excluídos da sociedade. E foi do meio desse povo que Jesus escolheu seus DISCÍPULOS. Quatro deles eram pescadores e já se conheciam, provavelmente das associações de pesca (Mc 1, 16-20). Um era cobrador (Mc 2, 13-14). Alguns possivelmente eram desempregados; um ou dois do grupo dos zelotes que recrutavam sua gente entre a população rural pobre. Todos eram da Galiléia (Mc 14, 70) e por serem de origem popular percebia-se neles certa demonstração de ignorância para com as leis, razão pela qual eram desprezados principalmente pelos fariseus. (Mc 2, 18; 2, 23; 7, 2).

Com certeza, as mulheres e as crianças não eram as únicas pessoas marginalizadas pela sociedade. Em situação semelhante, encontravam-se os surdos, os mudos (Mt 9, 32-33), os cegos (Mt 20, 29-34), os doentes mentais e contagiosos (Mc 1, 40-44), os pagãos e os escravos, as prostitutas e os estrangeiros.

 

 

OS EVANGELHOS

 

Evangélion=  Boa Nova

 

1-  Como surgiram os evangelhos

 

Jesus não mandou escrever nada, mas ordenou pregar e anunciar a Boa notícia da sua morte e ressurreição. Essa pregação começou no dia de Pentecostes. Impulsionadas pelo Jesus Ressuscitado, inúmeras comunidades fervorosas surgiram por toda parte e passaram a ser chamados “Cristãos” (At. 11, 26). Antes disso eram chamados Nazareus. Desde logo, precisavam organizar estas novas comunidades. Havia uma infinidade de perguntas a serem respondidas:

a)     Como comunicar essa fé aos outros?

b)     Como justificar sua fé diante das acusações dos outros, judeus e pagãos?

c)      Diante de problemas internos da comunidade, podemos recorrer aos tribunais civis?

d)     Como organizar nosso culto?

e)     Como deve ser o relacionamento dentro da nossa comunidade?

 

  • Para responder a estas perguntas, os apóstolos lembram-se das coisas ditas e feitas por Jesus. Assim, começavam a circular dentro das comunidades cristãs um grande número de narrações sobre Jesus: pedaços de discursos, relatos de milagres, descrições de fatos da vida d’Ele e frases soltas, ditas por Ele, em ocasiões diversas. Aos poucos, essas narrações foram sendo organizadas em coleções de forma a facilitar sua memorização e conservação. Essas coleções circulavam entre as comunidades de forma escrita ou oral, conforme as suas possibilidades.
  • Note-se que os escritos de São Paulo antecederam os Evangelhos escritos em mais de dez anos. Assim, enquanto as cartas paulinas podem ser datadas entre 50 a 60 d.C., os evangelhos só foram escritos entre 65 (Marcos), 70 – 80 (Lucas – Mateus) e João em 100 d.C.

 

 

2- Temas frequentes nos Evangelhos

 

  • Conflitos de Jesus:

            com o Templo;

            com os grupos sociais (saduceus, fariseus, herodianos, anciãos, doutores da lei);       com a Lei;

            com a Teologia da Prosperidade (Mc 10, 23-27);

            e até com seus discípulos

  • Visão de Messias: Era esperado um messias que viesse libertar o povo do jugo dos opressores – um rei ou chefe de um exército – e não um Messias Servo (Is 42).
  • A questão do MEDO e da FÉ: as comunidades estavam se enfraquecendo na fé e ficando com medo, até por conta das perseguições.
  • Justiça: principalmente no Ev. de Mateus
  • Reino de Deus (ou Reino dos Céus): os cristãos esperavam para logo a volta de Jesus e a chegada do Reino, mas estavam perdendo a esperança.  Por isso era importante deixar claro o papel da ação do cristão na construção deste Reino.
  • O papel das mulheres na comunidade: não só fazendo parte, mas principalmente como lideranças.
  • A preferência de Jesus pelos pobres
  • A misericórdia de Deus: principalmente no Ev. de Lucas (em oposição ao deus castigador das Leis)
  • Ser seguidor de Jesus: aparecem vários MODELOS DE SEGUIMENTO:

a) pessoas curadas que o seguem (cego Bartimeu: Mc 10, 46-ss);

b) mulheres que com Jesus se libertam (samaritana, a mulher pecadora Lc 7,36-ss, e outras);

c) os 72 que são enviados e voltam alegres pelo trabalho realizado;

d) Cristãos escondidos (que não têm coragem de assumir publicamente devido a sua posição social – por exemplo: Nicodemos que era membro do Sinédrio);

e) os apóstolos; chegam a abandonar Jesus, mas depois da Ressurreição, com a força do Espírito Santo, evangelizam e dão a própria vida pelo Evangelho.

 

            É importante prestarmos atenção na condição social dos apóstolos que constituíram o núcleo dos primeiros seguidores. Eram pessoas pobres, sem estudo, com profissões muito pouco valorizadas (pescadores, cobradores de impostos…), residentes em uma região que sofria preconceito por conta da mistura com povos pagãos. Se os apóstolos fossem escolhidos hoje, com os mesmos critérios que Jesus utilizou, eles estariam entre as pequenas comunidades de periferia, exerceriam profissões discriminadas e pouco desejadas no meio social. Provavelmente não estariam entre os formados nos bancos acadêmicos.

 

3- Evangelhos Sinóticos: Marcos, Mateus e Lucas

 

As diferenças e semelhanças entre esses Evangelhos vem das situações das diferentes comunidades: o gênero “evangelho” é primeiramente o anúncio da vida e prática de Jesus – principalmente de sua paixão, morte e ressurreição. Jesus é o filho de Deus que se identifica com o servo sofredor e assumiu a paixão e morte de cruz.

 

  • MARCOS, MATEUS e LUCAS partem do princípio que é a prática, a ação de Jesus que anuncia o reino. Podemos ter uma visão de conjunto colocando em colunas os três Evangelhos. Vemos semelhanças e diferenças, mas OS TRÊS TÊM O MESMO ESQUEMA GERAL e narram o mesmo fato. Por isso são chamados Sinóticos, pois nos dão um olhar de conjunto. O Evangelho de João tem um esquema totalmente diferente dos três primeiros.

 

 

 

O IMPORTANTE, NA ORIGEM DOS EVANGELHOS, É TER PRESENTE ESTES PASSOS:

 

1.      a vida e obra de Jesus, sua paixão, morte e ressurreição pelos anos 30;

2.     as comunidades que testemunharam o fato e transmitiam oralmente a outras pessoas (tradição oral);

3.     os redatores que começaram a escrever uma narração ordenada do fato Jesus. Isso a partir do ano 50, portanto bem depois da morte e ressurreição;

4.      nós, a comunidade dos cristãos de hoje, que recebemos os evangelhos, temos que atualizar esta Palavra para a nossa realidade;

 

 

 

A SOCIEDADE NO TEMPO DE JESUS

 

1)     SUA TERRA: Jesus nasceu, cresceu e viveu num país essencialmente agrícola, chamado Palestina. Desde o ano 62 a.C. era colônia do Império Romano.

  • A Palestina era dividida em duas partes: Judéia e Samaria, ao Sul; Galiléia, ao Norte.
  • Na Judéia e na Samaria, havia um procurador romano, ou seja, alguém que governava em nome do Imperador Romano e morava em Cesaréia.
  • A Galiléia tinha um rei, que na época de Jesus, era Herodes. Morava em Tiberíades.
  • Na Judéia e na Samaria, o Procurador deixava o Sinédrio – governo judeu – exercer o poder. Nomeava o Grande Sacerdote e só intervinha quando havia protestos populares.

 

2) SITUAÇÃO DA MULHER NA ÉPOCA DE JESUS

  • Sociedade patriarcal: autoridade única e exclusiva do homem.
  • Mulheres, escravos e crianças: expressão comumente usada na época, que demonstrava o lugar que a mulher ocupava na sociedade.

- Pertencia ao pai se solteira = podia ser vendida como escrava ente 6 e 12 anos

- ao marido se casada

- ao cunhado solteiro se viúva e sem filhos

  • Culto na sinagoga com ao menos 10 homens
  • Não eram obrigadas a participar das questões religiosas, mas sofriam as penalidades da lei religiosa
  • Rabi Jehuda diz: devem ser feitas três orações diárias:

      Bendito seja Deus que não me fez pagão

      Bendito seja Deus que não me fez mulher

      Bendito seja Deus que não me fez ignorante

      Bendito seja Deus que não me fez pagão porque todas as nações diante dele são como nada.

      Bendito seja Deus que não me fez mulher porque a mulher não está obrigada a cumprir os mandamentos.

      Bendito seja Deus que não me fez ignorante porque o ignorante não se envergonha de pecar.

  • No hebraico – língua original do 1º Testamento– as palavras PIEDOSO, JUSTO e SANTO não possuem forma feminina (não há piedosa, justa ou santa – eram qualidades somente atribuídas aos homens)
  • Condenadas à ignorância

- Não podiam receber instrução religiosa

  • Impedidas de serem testemunhas
  • Deviam permanecer em casa – na rua somente com o rosto coberto.
  • regras da boa educação proibiam:

- encontrar-se a sós com uma mulher, principalmente se casada.

- olhar ou saudar uma mulher casada

- falar com uma mulher na rua.

  • Lei da pureza trazia sofrimento às mulheres (Levítico 15,19-ss)
  • O marido pode pedir divórcio

- Se a mulher sair à rua sem cobrir a cabeça

- Se fica perdendo tempo na rua conversando

 – Inclusive quando tivesse deixado a comida queimar (rabi Hillel)

  • A noiva adultera era castigada com lapidação (apedrejamento) / a casada com estrangulamento (para o homem não havia castigo)

 

3) ATITUDES DE JESUS PARA COM AS MULHERES

  • Enfrenta a estrutura patriarcal

-seguidores homens e mulheres

-conversa com uma mulher na rua

-mantém amizade intensa e profunda publicamente com algumas mulheres.

-tem discípulas Lc 8,1-3  Mc 15,40-41

  • As primeiras testemunhas da ressurreição são mulheres

 

4) JESUS E A SAÚDE DOS ENFERMOS

  • Enfermidade como sinal de pobreza

- a mendicancia era a única forma de sobrevivência

  • Medicina incipiente

- a doença era um problema que se resolvia com a morte

- doenças simples – de pele p ex. – se estendiam pela vida toda

- doença como sinal de pecado

  • O médico não era bem visto

- Mc 5,26 (“padeceu na mão de muitos médicos”)

- Lc 4,23 (ditado popular)

  • Os milagres não apenas retiram os males, mas devolvem ao convívio social

 

5) JESUS E A RELIGIÃO

  • Saduceus – famílias ricas, normalmente o sumo sacerdote era saduceu
  • Sacerdotes – sacerdócio hereditário, não por vocação
  • Anciãos – não são os mais velhos, mas sim os mais ricos.
  • Fariseusos separados – a Lei como verdadeiro tesouro de Israel, mais que o Templo-Tinham 613 leis complementares

- esperavam intervenção divina com a vinda do Messisas = por isso o legalismo.

- faziam abluções especiais com água até 7 x por dia.

- entendiam que Deus teria uma obrigação para com eles.

- Jo 7,49 (“esse povinho…”)

  • Fariseus doutores da lei – estavam no Sinédrio

 

6) O TEMPLO

  • 18 mil funcionários, numa cidade de 30 mil habitantes
  • Centro político, financeiro/econômico e religioso

- o povo pagava imposta para manutenção do templo

- faziam sacrificios diariamente

- comércio movimentava todo o rebanho ao redor.

- é onde funcionava o Sinédrio – o procurador romano indicava o sumo sacerdote

  • Jesus questionou o Templo

      Rm 12,1 sacrifício de si mesmo

      Ef 2,21 a comunidade é o Templo.

 

PRIMEIRAS COMUNIDADES

 

Muitas coisas aconteceram entre o ano 30 e o ano 100, no primeiro século da caminhada da comunidades cristãs. A partir dos anos 40  houve a abertura para os samaritanos e os pagãos que não eram judeus. A entrada deste pessoal nas comunidades provocou tensões e levou à convocação de um Concílio, por volta do ano de 50. No Concílio foi aprovado que não eram necessárias a observância da Lei de Moisés e a circuncisão para se poder ter parte na salvação de Jesus. A partir dos anos 50, diminuem as testemunhas oculares de Jesus e surgem novas lideranças que não tinham conhecido Jesus, o que provocou novas tensões e dificuldades. Nos anos 60, houve a revolta dos judeus da palestina contra o império romano, que acabou levando à destruição de Jerusalém. Esta guerra trágica gerou uma grande crise religiosa dentro do judaísmo, que atingiu também as comunidades cristãs. A partir dos anos 60, começa a perseguição das comunidades (Nero), que vai exigir delas maior organização e unificação para poder resistir e sobreviver. A partir dos anos 70, aumentou o conflito que, aos poucos, foi levando à separação entre judeus e cristãos. Os judeus não aceitavam Jesus como o Messias esperado, e os cristãos não aceitava mais a observância cega da Lei de Moisés. Pouco a pouco, esta crise entre os dois irmãos foi chegando a uma ruptura e exclusão mútua. Por volta do ano 100 (quando o Evangelho de João estava recebendo sua redação final), os cristãos estavam sendo expulsos das sinagogas. (Raio-X da Vida – Carlos Mesters)

Todos estes fatos tiveram muita influência na maneira das comunidades viverem sua fé e transmitirem as palavras e gestos de Jesus. No ano de 30, lá na Palestina, na realidade rural, era de um jeito. Nos anos 70, 80, 100…, nos mundos grego e romano, urbanizado, com outra cultura e outras religiões, a coisa era bem diferente. É como se as comunidades cristãs do primeiro século vivessem em um outro mundo, diferente do de Jesus. A linguagem era diferente, os problemas eram diferentes, as perguntas do povo eram diferentes.

O mesmo ocorre com nossas comunidades hoje. Os Evangelhos nos servem de inspiração para compreendermos a vontade e o projeto de Deus para nossa vida em comunidade. Porém, nossos desafios não são os mesmos, e devemos atualizar a palavra do Evangelho de forma realista e compromissada, a fim de nos empenharmos na Construção do Reino de Deus, dentro de nós e no meio de nós.

 

CONTEXTO HISTÓRICO

 

            Na época em que foram escritos os Evangelhos, a ameaça de perseguição era constante. Havia o medo. No ano de 64, no tempo de Nero, antes dos Evangelhos serem escritos, os cristãos já tinham tido a primeira grande perseguição. Foi uma tempestade na vida das comunidades! (Mc 4,36). Muitos discípulos e discípulas tinham morrido. Alguns tinham negado a fé (Mc 14,71), tinham traído (Mc 14, 10.45) ou fugido (Mc 14, 50), e se dispersavam (Mc 14, 27). Outros tinham caído do primeiro fervor (Ap 2,4). A rotina tinha tomado conta da vida deles. Eles achavam que a perseguição era culpa de alguns mais afoitos e apressados. A cruz não deveria fazer parte da vida cristã. “A cruz é uma loucura!”, assim diziam (1Cor 1,18.23).

            Naqueles mesmos anos, entre 67 e 70, os judeus da Palestina tinham se rebelado contra a invasão romana, pois eles eram colônia de Roma desde 62 a.C. Roma então mandou reprimir a revolta e Jerusalém, a capital estava cercada e ameaçada de destruição total. O Templo seria profanado (Mc 13). A maioria dos cristãos eram judeus e não sabiam se deviam ou não entrar na rebelião contra o império romano. Estes problemas causavam muitas tensões nas comunidades. O horizonte não estava claro. Havia divisões e até guerra entre os próprios judeus. No ano 66 começou uma guerra desigual: um punhado de gente mal armada e despreparada (os judeus da palestina) enfrentou o exército mais poderoso jamais visto até então (o império romano). Nem mesmo contavam com a adesão de todos os judeus; os cristãos não participaram. Em 70, o centro político-econômico-religioso do judaísmo, o Templo, foi destruído e nunca mais reconstruído. Os que sobreviveram à tomada de Jerusalém foram escravizados ou dispersos.

Foi uma tragédia. Os judeus ficaram tão atordoados que só conseguiram se reorganizar direito nos anos 90. Desta forma, sob a liderança de respeitados mestres fariseus, criaram um novo centro da vida judaica, em Jâmnia, distante uns 50 km de Jerusalém. Não havia mais templo nem funções sacerdotais; os fariseus, leigos, principalmente os que conheciam a Tora, assumiram a vida religiosa, cujo centro passou a ser a Bíblia e sua interpretação. Para se protegerem, nesse momento de reconstrução do judaísmo, os fariseus quiseram separar os judeus de todo o contato com o paganismo com qualquer outra má influência, por isso os seguidores de Jesus de Nazaré, que morreu numa cruz, não podiam ser aceitos no judaísmo, pois o Antigo Testamento ensinava que um condenado à morte na cruz devia ser considerado como um “maldito de Deus” (Dt 21,23). Além disso, os cristãos acreditavam que Jesus era o novo intérprete das Escrituras, e isso os fariseus não toleravam. Ocorreu que os seguidores de Jesus ficaram sujeitos a serem expulsos das sinagogas. E foi o que aconteceu.

 

Fontes:

1-Como Ler os Evangelhos; autor: Felix Moracho; editora: Paulus (subtítulos 4 a 8 )

2-Ele está no meio de Nós: o Evangelho segundo Mateus; CNBB

3-Caminhamos na estrada de Jesus: O Evangelho de Marcos; CNBB

4-Uma Igreja que acredita: Evangelho segundo João; CNBB

 

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